São Paulo, domingo, 16 de março de 1952
Neste texto foi mantida a grafia original

OS NERVOS

Conto de Anton Tchekov

O arquiteto Dmitri Osipovitch Vaksin, que regressou da cidade para sua casa de campo, acha-se impressionado pela sessão espirita a que assistiu. Ao despir-se para deitar-se em seu leito solitario (pois sua mulher foi ao santuario de São Sergio), Vaksin vai recordando tudo quanto acabou de ver e ouvir. Falando claro, não foi uma verdadeira sessão espirita: a noitada passou-se em conversações tetricas. Uma senhorita começou falando em adivinhação do pensamento. Daí passaram para os espiritos, para os fantasmas; das aparições para os enterrados vivos... Um senhor leu a historia de um morto que se revirou no caixão. Vaksin pediu um instrumento de percussão e demonstrou às senhoritas como proceder para comunicar-se com os espiritos. Chamou seu tio Klavdi Mironovitch e perguntou-lhe, mentalmente, se não seria melhor na ocasião pôr a casa em nome de sua mulher. Ao que o tio respondeu: "Prever sempre é bom."

_ Há muitas coisas misteriosas... e temiveis, na Natureza _ refletia Vaksin cobrindo-se com o cobertor. - Não são os mortos que assustam: é a incerteza...

Soa uma hora da manhã. Vaksin vira-se para o outro lado e lança um olhar à luzinha azul da lamparina de azeite. A luzinha cintila e apenas alumia os cantos e o retrato do tio Klavdi Mironovitch, colocado na parede, em frente à cama.

_ Que faria, se nesta penumbra me aparecesse o espirito de meu tio? _ pensou Vaksin. - Não, são bobagens, isso não pode acontecer! Os fantasmas são invencionices de gente ignorante...

Todavia, Vaksin cobre a cabeça com o lençol e fecha os olhos. Desfilam-lhe pela imaginação o morto que se remexe no caixão, a falecida sogra, um companheiro enforcado, uma jovem afogada... Vaksin procura pensar em outras coisas, porem seus esforços são inuteis. Seus pensamentos avolumam-se mais fantasticos, mais embrulhados. O pavor o oprime.

_ Que diabo! Tenho medo como um menino!... É vergonhoso!

Tique-taque, tique-taque; ouve-se o barulho do relogio atrás da parede. Na igreja do lugar batem os sinos, um toque lento... triste... Vaksin sente um frio correndo-lhe pela espinha, pela nuca. Tem a impressão de que alguem respira a seu lado. Parece-lhe que o tio sai da moldura e se inclina sobre ele... Tem um medo invencivel. Aperta os dentes, prende a respiração. Por fim, quando pela janela aberta entra zumbindo um inseto, não aguenta mais e toca desesperadamente a campainha.

_ Dmitri Osipovitch, que deseja o senhor? _ diz ao cabo de alguns minutos a voz da governante alemã.

_ É você, Rosalia Carlovna? _ diz Vaksin com alegria. _ Por que você se incomodou? Gravile poderia...

_ Gravile foi com sua permissão ao povoado. A pequena tambem saiu... Não há mais ninguem em casa... Mas, que deseja o senhor?

_ Eu queria... Mas, entre!... não se acanhe, está escuro...

A gorda e rubicunda alemã entra no dormitorio e para, à espera da explicação.

_ Sente-se por um momento... Verá de que se trata... "Sobre o que a posso interrogar?"_ pensa Vaksin, olhando de revés o retrato do tio e sentindo tranquilizarem-se-lhe os nervos. - Queria pedir-lhe... que, amanhã, quando o criado for à cidade... lembre-o para trazer cigarros... Mas sente-se!

_ Deseja alguma coisa mais?

_ Sim, quero... não quero nada... Mas, por que não se senta? (Pensarei ainda outra coisa).

_ Não é decente para uma senhorita permanecer no quarto de um cavalheiro... E percebo, senhor, a sua brincadeira... compreendo... Por causa de cigarros não se desperta ninguem... compreendo...

Rosalia Carlovna sai do quarto. Vaksin, já tranquilizado pela conversa e envergonhado de sua covardia, cobre a cabeça com o lençol e fecha os olhos. Passam-se uns dez minutos relativamente suportaveis, mas logo se repetem as mesmas coisas. Tateando, procura os fosforos; acende a vela sem abrir os olhos. Contudo, a claridade não lhe arrefece o medo. Sua imaginação perturbada vê o tio revirar os olhos e alguem espreitá-lo de um dos cantos da parede.

_ Chamá-la-ei outra vez! Que o diabo a carregue!... - diz Vaksin. - Direi que estou mal... Pedirei remedios...

Vaksin toca a campainha. Não obtem resposta. Chama outra vez, e somente respondem os sinos da igreja. Preso de terror cego, sai como louco da alcova e, benzendo-se, dispara, pelo corredor, para o quarto da governante. Está descalço e em trajes menores.
_ Rosalia Carlovna! _ chama com voz tremula. _ Rosalia Carlovna! Você dorme? Estou... estou doente...

Ninguem responde. O silencio é completo.

_ Peço-lhe, compreende? peço-lhe. Para que tantos melindres? Não entendo... e alem disso se alguem está doente... Em sua idade e tão escrupulosa...

_ Direi à sua senhora... Deixe-me em paz! Sou uma moça honrada!... Quando eu servia em casa do barão Anzig e o barão quis entrar em meu quarto procurando fosforos, compreendi tudo... Imediatamente compreendi que fosforos procurava e avisei a baronesa... Sou uma moça honesta...

_ Que tenho eu que ver com sua honestidade! Estou doente... e quero umas gotas... entende? Estou mal...

_ Sua senhora é uma boa mulher, honrada; o senhor deve amá-la. Sim! É uma pessoa nobre! Não tenho intenção de ser sua rival.

_ Estupida! Você é uma estupida! Compreende-me?

Vaksin recosta-se na ombreira da porta, cruza os braços, e assim fica, à espera que o medo se vá. Não tem forças para voltar ao quarto e ver aquela luzinha brilhante e o retrato do tio. Tambem não lhe é possivel ficar meio nu no corredor. O medo não o abandona. O corredor está escuro e tem quase a certeza de que em cada canto alguma coisa terrivel o espera. Volta o rosto para a parede e, ao fazê-lo, parece-lhe que tiraram a sua camisa e lhe batem no ombro.

_ Demonio!... Rosalia Carlovna!

Nenhuma resposta. Vaksin, indeciso, entreabre a porta e lança um olhar ao quarto. A virtuosa alemã dorme tranquilamente. Uma lamparina ilumina os relevos de seu corpo maciço. Vaksin entra e senta-se no baú ao lado da porta. A presença de um ser vivo, mesmo dormindo, o tranquiliza; sente-se aliviado.

_ Que durma a tonta! Ficarei aqui até que amanheça e então irei embora... Agora amanhece cedo...

Esperando a luz do dia, Vaksin encolhe os pés, põe a mão debaixo da cabeça e fica refletindo: "Cuidado com os nervos!... Eu, homem culto, instruido, tenho medo... medo como uma criança... Que vergonha!".

Pouco a pouco, ouvindo a respiração monotona de Rosalia Carlovna, acalma-se completamente.

Às seis horas, a senhora Vaksin, ao voltar de sua peregrinação, entra no dormitorio e, ali não encontrando o marido, vai ao quarto da alemã a fim de pedir-lhe dinheiro miudo para pagar o carro. Ao entrar, depara com o seguinte quadro: Rosalia Carlovna, sufocada de calor, dorme em sua cama, e, a um metro dela, acocorado no baú, seu marido ronca docemente, descalço e em trajes menores. Que fez a mulher e qual a cara do marido ao despertar, que outros descrevam. Estou esgotado e baixo as armas.
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