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História :: Plano Marshall JOÃO BONTURI da Folha Online A generosidade estratégica Os US$ 13,3 bilhões do Plano Marshall mudaram a face da Europa. A elaboração do plano, inserido no painel da recém-inaugurada Guerra Fria, que já se instalara em meio aos escombros das cidades européias abatidas pela Segunda Guerra Mundial, foi fruto de um grupo de elite: banqueiros de Wall Street e diplomatas, com estreitos vínculos na Europa e ampla visão do papel norte-americano no momento do pós-guerra. Temendo o avanço comunista sobre a Europa Ocidental, achavam que só os EUA seriam capazes de salvá-la do caos e do comunismo. George Marshall deu nome ao plano e foi seu padrinho, mas não seu criador. Os verdadeiros idealizadores eram burocratas desconhecidos. Marshall, secretário de Estado do então presidente Harry Truman, convencido de que essa estratégia diminuiria o avanço dos partidos comunistas, principalmente na França e na Itália, tomou para si a defesa da idéia junto aos congressistas. Num discurso de formatura em Harvard, em 5 de junho de 1947, Marshall foi incisivo: "Nossa política não se volta contra nenhum país ou doutrina, mas contra a fome, a pobreza, o desespero e o caos". A batalha para a aprovação do plano no Congresso dava a impressão de que seria longa e fastidiosa. Porém, um fato contribuiu para assustar eleitores e congressistas: os soviéticos jogaram duro contra a Tchecoslováquia, quando o ministro das Relações Exteriores pró-ocidente, Jan Masarik, caiu –ou foi empurrado- da janela de seu escritório em Praga e morreu. Em Washington, no Departamento de Defesa, vários generais temiam que o pós-guerra se transformasse em um novo pré-guerra. O fantasma comunista causava calafrios. Coincidentemente, o grupo que elaborava o plano era o mais bem informado sobre a situação no Leste europeu, e sabia que Stálin, por mais desvairado que fosse, não estava disposto a reiniciar as hostilidades naquele momento, quando os corpos de 20 milhões de soviéticos mortos durante a guerra ainda não haviam esfriado. Mas, interessados na aprovação do plano, não hesitaram em usar táticas de amedrontamento para "uma boa causa". O Plano de Recuperação Européia, seu nome original, foi aprovado com larga margem de votos. O real alcance do Plano Marshall é hoje objeto de discussão. Vários economistas afirmam que sua influência foi superficial, salientando que havia uma vontade européia de inovar e restaurar-se. Entretanto, o plano puxou os indicadores econômicos para cima, e o padrão de vida, que havia declinado 8% ao ano entre 1938 e 1947, recupera-se com a elevação da renda per capita em um terço entre 1948 e 1951. Os técnicos norte-americanos levaram "know-how" para os colegas europeus e encontraram enorme boa vontade. No aspecto político, os Estados da Europa Ocidental foram obrigados a atuar em conjunto e superar velhas rivalidades; os EUA abandonaram finalmente seu isolacionismo em tempo de paz, originário da velha doutrina Monroe, e a posterior organização da Otan foi a prova definitiva da solidificação da aliança atlântica. Enquanto isso, a Europa Oriental iniciava a sua grande noite sob domínio soviético. Hoje o resultado de tudo isso é evidente: a Comunidade Européia caminha para a consolidação, enquanto o Leste Europeu pós-Guerra Fria é uma incógnita. |
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