CATALUNHA - A INDOMAVEL


As razões ethnicas e historicas de sua altaneria e seu espirito bellicoso

Publicado na Folha da Manhã, domingo, 29 de dezembro de 1935

Neste texto foi mantida a grafia original

Foi somente no seculo XII que o territorio catalão foi incorporado à Hespanha.
Seus primeiros habitantes foram Iberos. A esse primeiro sedimento ethnico juntou-se mais tarde o dos Phenicios, que se installaram no territorio compreendido entre o Llobregat e os Pryrineus, no seculo VII, ou VIII, antes de Christo, depois de haver fundado na Gallia a cidade de Marselha. Vieram em seguida os Gregos, que já encontraram ali agricultura e commercio organizados.
Nesse tempo, segundo os chronistas de Athenas e Coryntho, os habitantes d'essa região dividiam-se em tribus: - a dos Coretanos, que habitavam a Cerdanha, os Ruscinios, que viviam no actual Rosellon, os Indigetes, que se entendiam desde o cabo Creus até Badalona, os Sedetanos, Susetanos, Ileuscaones, Ausetancs, Iseligetes Coretanos, que tinham sua capital em Core (hoje Tarragona), etc.
Invadida pelos Carthaginezes no anno 235, antes de Christo, foi depois dominada pelos Romanos.
No seculo VI, tendo a Catalunha acompanhado o destino do imperio romano, invadido pelos Barbaros, Barcelona se tornou a capital do reino Visigodo.
Em fins do seculo VIII, foi conquistada pelos Francos, que a reuniram a Septimania, formando a chamada Marca Hispanica ou fronteira de Hespanha.

O inicio de sua bellicosa historia

Começára, então, a invasão da Hespanha pelos Arabes. Graças a sua situação geographica e ás suas montanhas, a Catalunha se tornou refugio de muitos que fugiam da península diante do dominio muçulmano.
Mas no anno 713, Barcelona cahiu nas mãos de Abd-el-Assis, cabendo a mesma sorte a Gerona, no anno 717. Mas os Catalães já se distinguiam, então, pela altivez indomavel e as qualidades de bravura: os conquistadores arabes não lograram penetrar nos districtos montanhosos como a Alta Cerdanha, Urgel e Pellars, que continuaram a ser um refugio seguro para Christãos.
Os Francos installaram-se ali mais como amigos do que como dominadores, pois tinham em vista unicamente amparar esse estado tampão, que detinha a onda musulmana e impedia que ella inundasse a França.
Dizem tradições não confirmadas por documentos historicos que Carlos Magno, depois de haver annexado a Aquitania em 709, penetrou em Hespanha enviando um exercito até Saragossa e descendo, elle proprio, com outro pelo Rosellon, onde recebeu homenagens dos principes arabes, que governavam em Barcelona e Gerona. Mas tendo que regressar apressadamente ao Rheno, para suffocar uma rebelião dos Saxões, deixou na retaguarda um corpo de exercito que, com Roland a frente, foi derrotado em Roncevaux (então Roncevalles).
Em represalia, os Francos conquistaram Gerona em 785 e nelle installou Carlos Magno um conde, para governar em seu nome.
Desde então, não mais cessaram as lutas entre Muçulmanos e Francos, na Catalunha. Gerona reconquistada pelos Arabes no anno 800, foi retomada em 801 por Ludovico Pio. Mas, em menos de meio seculo, os condes da Catalunha, apoiados pela população, declararam-se independentes.

Um reino obtido por um casamento - uma noiva com 2 annos de edade

Sob esse regime se manteve a Catalunha independente até, que, em 1137, um dos condes de Barcelona, Ramon Berenguer IV, contrahiu, aos vinte e dois annos, esponsaes com a princeza Petronilha, filha unica e herdeira do rei Ramiro II, de Aragon. Essa princeza contava então apenas dois annos de edade, mas seu pae empenhou-se em contratar desde logo seu casamento com o poderoso conde Ramon pois não via outro meio de salvaguardar a independencia do reino de Aragon, vencido e subjugado pelo de Castella. Em virtude d'esse casamento, o conde de Barcelona recebeu o titulo de principe de Aragon.
No anno 1150, tendo Petronilha, completado quinze annos, realizou-se o casamento definitivo, Ramon assumiu effectivamente o governo de Aragon, juntamente com o da Catalunha e entrou logo a agir militarmente, obrigando o rei Sancho III, de Castella, a restituir as praças-fortes aragonezas, que havia conquistado ao rei Affonso VII. Em compensação recolheu-se com subdito de Castella, auxiliando nesse caracter Sancho III, na conquista de Tolosa, Lerida, Fraga e Mequineuza.

Como se fez a incorporação de Catalunha a Hespanha

O filho de Ramon e Petronilha uniu as corôas de Aragon e Catalunha ao subir no throno, em 1164, com a morte de seu pae. E como abandonasse o nome de Ramon para adoptar o de Affonso VIII, passou a Catalunha a ser uma parte de Aragon e portanto, da Hespanha, porque em 1474, por occasião da fusão de Castella e Aragon pelos reis Fernando, e Izabel, os Catholicos, acompanhou o destino de Aragon.
Mas nunca deixou de reivindicar seus privilegios, tomando armas pela primeira vez no seculo XVII, contra o poderoso rei Felippe IV, que pretendia retirar-lhe umas tantas regalias e acabou por abandonar essa pretensão.
Durante a guerra da Successão, de 1700 a 1714, tomou partido pelo archi-duque da Austria; mas foi dominada por Felippe V, que lhe impoz a humilhação da construcção de uma cidadella em Barcelona e a transladação de sua universidade para Cevera.
Em 1812, um decreto de Napoleão annexou-a á França e dividiu-a em departamentos; mas os Catalães resistiram com tal energia que, em 1814, quando o Corso Genial foi desthronado ainda as autoridades francezas não tinham podido dar execução a esse decreto.

A ethymologia de "Catalunha"

A denominação actual de Catalunha só tarde appareceu na Historia e sobre sua origem na multiplas e variadas versões.
Começou-se por acreditar que ella lhe foi dada pelos Godos, que a chamaram "Gothalaunia". Mas ha documentos anteriores á invasão dos Barbaros do Norte citando a palavra "calalá", como nome gentilico dos habitantes da região.
O nome Catalonia apparece pela primeira vez em um documento de 1169.
O erudito hespanhol Miguel Cortez Lopez e alguns pesquisadores mais antigos, como Zurita, consideram que "Catalani" deriva de "Castellani". Tambem Florian de Ocampo assim pensa; mas uns e outro, apenas presentiram a ethymologia sem buscar para ella comprovação, que só mais tarde foi encontrada e é a seguinte:
Creação militar, com o intuito de estabelecer uma trincheira entre a peninsula iberica, já invadida pelos muçulmanos e a Gallia Christã, a Marca Hispanica (que hoje constitue a Catalunha) precisou desde logo de fortificações, castellos ou fortalezas para sua segurança e defesa. Houve pois necessidade de crear numerosos castellões, que se encarregariam de defendel-os, como vassallos, em nome de seus senhores, os condes de Barcelona.
Assim se organizou na região a vida sob regime feudal sui generis, dando-se o nome castellanus (como se vê em numerosos documentos da época) aos guardas ou prefeitos, que ficaram com a missão de manter e defender os castellos, sem direito de posse sobre elles.
D'esse primitivo castellanus, já usado no inicio das invasões arabes, derivam em francez, as palavras chastelain e depois chatelain; e no baixo latim, que ainda se falava na peninsula iberica, se formou a palavra castlanus, para designar o vassallo, que mantinha um castello em feudo de outro senhor. De castlanus foram variantes locaes, castlá, e catla, que ainda hoje perduram na Catalunha, mas para o resto da peninsula hespahola se transformou em catalan.

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