FIDEL ATACA O PLANO DE KENNEDY PARA AS AMERICAS

Publicado na Folha de S.Paulo, quarta-feira, 15 de março de 1961

Neste texto foi mantida a grafia original

HAVANA, 14 - O plano do presidente Kennedy é uma «zombaria continental» e consiste em oferecer aos latino-americanos uma esmola de quinhentos milhões de dolares, declarou na noite passada o primeiro-ministro cubano Fidel Castro.
«A «Aliança Para o Progresso» tem por fim manter o dominio colonial e imperialista sobre a America Latina», acrescentou Castro. «Esperar outra coisa dos Estados Unidos é como esperar que o senhor de liberdade a seus escravos».
O lider revolucionario cubano fez essas declarações por ocasião da comemoração do assalto levado a efeito, no dia 13 de março de 1957, por um grupo de estudantes, contra o palacio presidencial cubano, ocupado então por Fulgencio Batista. A maior parte do discurso de Castro foi destinada a criticar as propostas feitas recentemente pelo presidente Kennedy sobre a politica interamericana.
O lider cubano negou a Kennedy o direito de falar de desenvolvimento, «porque p proibe sua multiplicidade de monopolios. «Há quem possa ser levado a crer que os avaros sedentos de ouro, os milionarios ianques, estejam preocupados com o progresso da America? - indagou o orador. «Eles não têm outra preocupação senão a possibilidade de perder seus negocios e seus latifundios na America Latina.

O desenvolvimento industrial

Outrossim, Fidel Castro acusou o presidente Kennedy de oferecer 500 milhões de dolares para escolas, estradas e casas, mas de nada oferecer para o desenvolvimento industrial.
«Cuba está ensinando o caminho aos demais povos latino-americanos», frisou. «Cuba está resolvendo este problema, já que o que é preciso não são esmolas, mas resgatar a riqueza nacional das mãos estrangeiras. A dignidade nacional e o futuro dos povos da America Latina não podem ser vendidos, enganando ao comprador.»
em seguida, Fidel Castro elogiou a atitude de varios setores latino-americanos que, afirmou, «constitui motivo mais que suficientes para preocupar o imperialismo».
O primeiro-ministro cubano citou «a atitude digna tomada pelos presidentes do Brasil e do Equador em defesa da livre determinação dos povos, as declarações do atual presidente do Conselho do governo uruguaio, a vitoria de Alfredo Palacios na Argentina, a dos socialistas e comunistas, no Chile, a extraordinaria significação da conferencia em favor da emancipação, soberania e paz na America Latina, celebrada no Mexico, e atitude do governo mexicano».
Fidel Castro frisou ainda que Kennedy não poderia comprar a consciencia latino-americana com 500 milhões de dolares, e atacou o «chamado mundo livre, que é o mundo de tirania espanhola, dos alemães e japoneses belicistas, de Chiang Kai Chek e dos assassinos de Lumumba».

Advertencia

Por outro lado o orador advertiu o povo cubano de que «a revolução não é empresa facil».
«Continuarão os fuzilamentos - disse ainda - pois a revolução se tornará mais radical e se fará mais dura em sua luta de morte com a contra-revolução.»
o primeiro-ministro de Cuba aduziu que «se os Estados Unidos propiciarem a formação de um governo cubano no exilio. Cuba tambem favorecerá a formação de mitos governos no exilio, como o porta-riquenho, por exemplo.»
Fidel Castro concluiu afirmando que Cuba levará ao conhecimento da ONU o bombardeio de uma refinaria de Santiago de Cuba, efetuado por um navio-pirata.
Enquanto Fidel Castro falava, uma bomba explodiu num banco de um bairro residencial, causando graves prejuizos, embora não se tenha informado se houve feridos.

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