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São
Paulo, domingo, 1º de janeiro de 1978
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O "ECLESIASTES" E A MESMICE
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Geração
vai, geração vem, mas a terra permanece para sempre.
Levanta-se sol, põe-se sol, volta ao seu lugar, onde nasce
de novo. O vento vai para o sul e faz seu giro para o norte; volve-se
e revolve-se na sua carreira.
Todos os rios correm para o mar e o mar não se enche; ao
lugar para onde correm os rios, para lá se tornam eles a
correr. Todas as coisas são canseiras. Tais que ninguém
as pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem se enchem
os ouvidos de ouvir.
O que foi, é o que há de ser e o que se faz, isso
se tornará a fazer. Não há, pois, nada de novo
sob o sol.
Há alguma coisa de que possa dizer: vê, isto é
novo? Isto foi novo nos séculos que foram antes de nós.
Já não há lembrança das coisas que nos
precederam e, das coisas posteriores, também não há
memória, entre os que irão nos suceder.
Apliquei o coração a esquadrinhar e a informar-me
com sabedoria sobre tudo o que sucede debaixo do céu. Atentei
para todas as obras que se fazem debaixo do sol e eis que percebo:
tudo é vaidade a correr atrás do vento.
Aquilo que é torto não se pode endireitar e o que
falta não se pode calcular. Apliquei também o coração
em conhecer a sabedoria e a discernir entre loucura e estultícia
e vim a descobrir que também isto é correr atrás
do vento. Porque na muita sabedoria há muito enfado e quem
aumenta ciência, aumenta tristeza.
Empreendi grandes obras, fiz jardins e pomares, construí
açudes, comprei servos e servas, amontoei ouro e prata. Provi-me
de cantores e mulheres. Engrandeci-me e sobrepujei todos os que
viveram antes de mim em Jerusalém. Tudo quando desejaram
meus olhos não lhes neguei, nem privei meu coração
de alegria alguma. Considerei todas as obras que fizeram minhas
mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas,
havia feito e eis que tudo era vaidade a correr atrás do
vento e nenhum proveito havia sob o sol.
A sabedoria é mais proveitosa do que a estultícia.
Quanto à luz, traz mais proveito do que trevas. Os olhos
do sábio estão na sua cabeça mas o estulto
anda no escuro. Contudo, entendi que o mesmo sucede a ambos. Pois
assim do sábio como do estulto, a memória não
durará para sempre - passados alguns dias tudo cai no esquecimento.
Tudo tem o seu tempo determinado. Há tempo para todo propósito
sob o sol: há tempo para nascer e tempo para morrer, tempo
de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Tempo de matar
e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de edificar. Tempo de
chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de saltar de alegria.
Tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras, tempo de abraçar
e tempo de afastar-se, tempo de buscar e tempo de perder, tempo
de guardar e tempo de deitar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar,
tempo de calar-se e tempo de falar, tempo de amar e tempo de aborrecer,
tempo de guerra e tempo de paz.
Tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os
que ainda vivem. Porém, mais uns que outros, tenho por feliz
aquele que ainda não nasceu e não viu as más
obras que se fazem sob o sol.
Melhor é a boa fama do que o unguento precioso e o dia da
morte, melhor do que o dia do nascimento. Melhor é ir a casa
onde há luto do que ir a casa onde há banquete. Naquela
se vê o fim de todos os homens - os vivos que o tomem em consideração.
Melhor é mágoa do que o riso, porque com a tristeza
do rosto se faz melhor o coração. O coração
dos sábios está na casa do luto, mas o dos insensatos
na casa da alegria. Melhor ouvir a repreensão do sábio
do que o louvor do insensato, melhor é o fim das coisas do
que o princípio, melhor o paciente do que o arrogante.
Jamais diga: por que foram os dias passados melhores do que estes?
Não é sábio perguntar assim.
Ainda que o homem viva anos, regozije-se em todos eles. Contudo,
lembra-te - há dias de trevas.
Tudo quanto sucede é vaidade. Vaidade de vaidade, diz o pregador,
tudo é vaidade.
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O "Eclesiastes" é
um dos sete livros sapienciais do Antigo Testamento. Consta de reflexões
e máximas, do gênero que hoje se chamaria "pensamentos".
Parte da filosofia de que "tudo é vaidade" e seu
tom docemente cético o distingue dos demais livros de seu
tipo do Antigo Testamento.
"Eclesiastes" é palavra grega correspondente à
hebraica "Cohelet", que significa aquele que fala numa
assembléia, orador. Cohelet é também nome próprio,
provavelmente um nome literário ou acadêmico adotado
pelo autor do texto. Como em outros livros da Bíblia, tudo
indica haver interpolações feitas por várias
pessoas, mas o autor do texto básico é um só
- um anônimo mestre da sabedoria popular. Os excertos acima
são uma síntese do famoso livro, tomando por base
a versão da Bíblia em português atual de João
Ferreira de Almeida (Sociedade Bíblica do Brasil).
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