O ESPANCADOR

Publicado na Folha da Manhã, sexta-feira, 05 de junho de 1987

FRANZ KAFKA

Quando, numa das noites seguintes, K. passava pelo corredor que separava seu escritório da escada principal - desta vez ele era praticamente o último a ir para casa, apenas na expedição ainda trabalhavam dois serventes no pequeno campo de luz de uma lâmpada elétrica - ouviu gemidos atrás de uma porta onde sempre supusera existir somente um quarto de despejo, sem nunca tê-lo visto pessoalmente. Ficou parado, perplexo, e escutou mais uma vez para verificar se não estava enganado - houve um instante de silêncio, mas depois os gemidos reapareceram. Quis primeiro ir buscar um dos serventes, talvez fosse necessária uma testemunha, mas depois ficou tomado por uma curiosidade de tal modo indomável que literalmente escancarou a porta. Era, como havia corretamente suposto, um quarto de despejo. Atrás da soleira jaziam velhos impressos imprestáveis e tinteiros de barro vazios emborcados no chão. Mas no quarto propriamente dito estavam três homens curvados sob o teto baixo. Uma vela fixada sobre uma estante os iluminava.
- O que estão fazendo aqui? - perguntou K. atropelando-se de excitação, mas não em voz alta.
Um dos homens, que manifestamente dominava os outros e era o primeiro a atrair o olhar, estava metido numa espécie de roupa escura de couro que deixava o pescoço nu até o peito e os braços inteiramente à mostra. Ele não respondeu. Mas os outros dois exclamaram:
- Senhor, devemos ser espancados porque se queixou de nós para o juiz de instrução.
Só então K. reconheceu que de fato eram os guardas Franz e Willem e que o terceiro homem segurava na mão uma vara para espancá-los.
- Bem - disse K. fitando-os -, eu não me queixei apenas disse o que se passou em minha casa. E na verdade vocês não se comportaram de maneira inatacável.
- Senhor - disse Willem, enquanto Franz tentava claramente se proteger do terceiro homem ficando atrás do primeiro -, se soubesse como somos mal pagos faria melhor juízo de nós. Tenho uma família para alimentar e Franz, aqui presente, queria se casar, procuramos ganhar dinheiro como dá, com trabalho apenas não se consegue, mesmo que seja o mais estafante. As finas roupas de baixo do senhor me atraíram, naturalmente é vedado aos guardas agir desse modo, foi incorreto, mas a tradição é que as roupas brancas pertencem aos guardas, sempre foi assim, acredite; além do mais é compreensível, pois o que significam essas coisas para quem teve a infelicidade de ser detido? Mas se a pessoa traz isso a público, então a punição também tem de vir.
- O que agora estão dizendo eu não sabia, também não exigi de forma alguma a punição de vocês, para mim se tratava de uma questão de princípio.
- Franz - voltou-se Willem para o outro guarda - eu não disse que este senhor não exigiu a nossa punição? Agora você está ouvindo que ele nem ao menos sabia que nós temos de ser punidos.
- Não se deixe comover por esses discursos - disse o terceiro homem a K. - A punição é não só justa como inevitável.
- Não ouça o que ele diz - disse Willem e só se interrompeu para levar rápido à boca a mão sobre a qual tinha recebido um golpe de vara. - Nós só estamos sendo punidos porque o senhor nos denunciou. Se não fosse isso, nada nos teria acontecido, mesmo que ficassem sabendo o que fizemos. Pode-se chamar isso de justiça? Nós dois, eu principalmente, demos boas provas como guardas durante muito tempo - o senhor mesmo precisa admitir que, do ponto de vista da autoridade, vigiamos direito; tínhamos perspectivas de progredir e certamente nos tornaríamos logo espancadores como este homem, que teve a sorte de não ser denunciado por ninguém, pois na realidade uma denúncia como essa só acontece muito raramente. E agora, senhor, está tudo perdido, nossa carreira terminada, vamos ter de realizar trabalhos muito mais subalternos do que montar guarda, e além disso recebemos neste momento estas pancadas horrivelmente dolorosas.
- Esta vara pode então causar dores assim? - perguntou K. examinando a vara que o espancador brandia diante dele.
- Teremos de ficar completamente nus - disse Willem.
- Ah, bom - disse K. olhando o espancador com atenção; ele era bronzeado como um marinheiro e tinha um rosto selvagem e descansado.
- Não existe nenhuma possibilidade de poupar os dois do espancamento? - perguntou-lhe.
- Não - disse o espancador balançando sorridente a cabeça. - Tirem a roupa! - ordenou aos guardas, dizendo depois a K.: - Não deve acreditar em tudo o que eles dizem, já estão um pouco embotados pelo medo de serem espancados. O que este aqui, por exemplo - apontou para Willem - contou sobre sua carreira é simplesmente ridículo. Veja como está gordo - as primeira varadas vão se perder por completo na banha. Sabe por que ele ficou tão gordo? Porque tem o costume de tomar o café da manhã de todos os detidos. Ele não tomou o café da manhã do senhor também? Bem, foi o que eu disse. Mas um homem com uma barriga dessas não pode nunca, em hipótese alguma, se tornar espancador, está completamente fora de cogitação.
- Existem também espancadores assim - afirmou Willem, que naquele momento desapertava a cinta da calça.
- Não - disse o espancador fustigando-lhe o pescoço com a vara de tal modo que ele estremeceu inteiro. - Você não deve ficar escutando mas ir tirando a roupa.
- Eu o pagaria bem se você os deixasse ir embora - disse K. puxando a carteira sem olhar outra vez para o espancador - essas transações são melhor efetuadas por ambas as partes com os olhos voltados para baixo.
- Você decerto quer também me denunciar depois - disse o espancador - e ainda por cima me arranjar pancadas. Não, não!
- Seja razoável - disse K. - Se eu tivesse desejado que esses dois homens fossem punidos, não iria nessa hora querer resgatá-los. Poderia simplesmente bater esta porta aqui, sem querer continuar a ver ou ouvir nada e ir para casa. Mas não o faço porque estou seriamente interessado em libertá-los; se tivesse adivinhado que eles deviam ou até mesmo que podiam ser punidos, não teria nunca mencionado seus nomes. De fato não os considero culpados, culpada é a organização, culpados são os altos funcionários.
- Isso mesmo! - bradaram os guardas, recebendo no ato uma varada nas costas já despidas.
- Se você tivesse aqui debaixo da sua vara um alto magistrado - disse K. empurrando para baixo, enquanto falava, a vara que já queria se levantar de novo -, eu na verdade não o impediria de bater; pelo contrário, ainda daria dinheiro para que você se fortalecesse no desempenho dessa boa causa.
- O que está dizendo soa plausível - disse o espancador -, mas não me deixo subornar. Fui empregado para espancar, por isso espanco.
O guarda Franz, que talvez na expectativa de um bom resultado da intervenção de K. se mantivera até então relativamente reservado, andou até a porta, vestido só com as calças, pendurou-se no pescoço de K. enquanto se ajoelhava e cochichou:
- Se não conseguir que nós dois sejamos poupados, procure então pelo menos me libertar. Willem é mais velho do que eu, menos sensível em todos os aspectos, há alguns anos também já recebeu uma pena leve de espancamento, mas eu ainda não estou desonrado e só fui levado a agir daquela maneira por Willem, que é meu mestre no bem e no mal. Lá em baixo, diante do banco, minha pobre noiva espera na saída, estou miseravelmente envergonhado.
Enxugou com o paletó de K. o rosto todo molhado de lágrimas.
- Não espero mais - disse o espancador, agarrou a vara com as duas mãos e vergastou Franz, enquanto Willem ficava de cócoras num canto e observava furtivamente, sem ousar um só movimento de cabeça. Foi então que se ergueu o grito que Franz soltou, um grito contínuo e inalterável; não parecia o grito de uma pessoa, mas de um instrumento martirizado, o corredor inteiro ressoava, o prédio todo devia escutá-lo.
- Não grite - bradou K. sem poder se conter, e enquanto dirigia o olhar tenso na direção de onde os serventes tinham de vir, bateu em Franz, não com muita força, mas com força suficiente para que este, fora de si, desabasse procurando convulsivamente catar o chão com as mãos; mas não escapou às pancadas, a vara foi encontrá-lo também por terra; enquanto se revolvia, a ponta da vara ia vibrando regularmente para cima e para baixo. A distância já aparecia o primeiro servente e a alguns passos atrás dele o segundo. K. bateu rapidamente a porta, andou até uma das janelas que davam para o pátio e a abriu. Os gritos desapareceram por completo. Para não deixar os servidores se aproximarem exclamou:
- Sou eu!
- Boa noite, senhor procurador - bradaram eles de volta. Aconteceu alguma coisa?
- Não, não - respondeu K. - É apenas um cão ganindo no pátio.
Mas como eles não se mexiam, acrescentou:
- Podem voltar ao seu trabalho.
Para não ter de entabolar conversa com os serventes, inclinou-se sobre a janela. Quando alguns instantes depois olhou de novo para o corredor, eles já tinham ido embora. Mas K. ficou perto da janela, não ousava ir até o quarto de despejo, embora também não quisesse ir para casa. Era um pequeno pátio quadrangular que ele olhava de cima, à volta estavam instalados os escritórios, todas as janelas permaneciam escuras agora, só as mais altas recebiam um clarão de lua. K. tentou com esforço penetrar com o olhar a escuridão de um canto do pátio no qual se encontravam encaixados uns nos outros alguns carrinhos de mão. Atormentava-o não ter conseguido impedir o espancamento, mas não era culpa sua o fato de não tê-lo conseguido, se Franz não tivesse gritado - certamente devia ter sentido muita dor, mas num momento decisivo é necessário se controlar - se ele não tivesse gritado, era pelo menos provável que K. ainda tivesse encontrado um meio de persuadir o espancador. Se todos os funcionários subalternos eram uma corja, por que justamente o espancador, que tinha o oficio mais desumano, deveria constituir uma exceção? K. tinha observado muito bem como os olhos dele se iluminaram ao ver a nota de dinheiro: evidentemente só havia levado o espancamento a sério para aumentar um pouco mais a soma do suborno. E K. não teria regateado, estava realmente interessado em libertar os guardas; uma vez que já havia começado a combater a corrupção daquela tribunal, era natural que atacasse também por esse lado. Mas no momento em que Franz começou a gritar, tudo acabou, é claro. K. não podia permitir que os serventes e talvez todas as pessoas possíveis chegassem e o surpreendessem em conversações com aquela gente no quarto de despejo. Esse sacrifício ninguém podia de fato exigir de K. Se tivesse pretendido isso, teria sido quase mais fácil que se despisse e se oferecesse como substituto para os guardas. Aliás o espancador com certeza não teria aceitado essa substituição, já que assim, sem obter vantagem alguma, teria violado seriamente o seu dever - talvez até em dobro, pois enquanto K. estava sob julgamento, tinha de permanecer invulnerável a todos os funcionários do tribunal. Entretanto também aqui podiam vigorar determinações especiais. De qualquer maneira K. não tinha podido fazer outra coisa senão bater a porta, embora com isso não estivessem, ainda agora, completamente superados todos os perigos para ele. O fato de no final ter desferido um golpe em Franz era lamentável e só se desculpava por causa do seu nervosismo.
Ouviu à distância os passos dos serventes; para não chamar a atenção deles fechou a janela e caminhou em direção à escada principal. Ficou parado um pouco junto à porta do quarto de despejo, escutando. O silêncio era completo. O homem podia ter matado os guardas de pancadas, com efeito eles estavam inteiramente em seu poder. K. já tinha estendido a mão para a maçaneta, mas depois voltou a retirá-la. Não podia ajudar mais ninguém e os serventes deviam chegar logo; prometeu no entanto voltar ao assunto e, na medida das suas forças, castigar como mereciam os verdadeiros culpados, os altos funcionários, nenhum dos quais tinha ainda ousado se mostrar a ele. Quando descia a escadaria do banco, observou com cuidado todos os transeuntes, mas nem mesmo de longe se podia ver uma jovem à espera de alguém. A afirmação de Franz, de que sua noiva o aguardava, provava ser uma mentira, embora perdoável, e cujo objetivo tinha sido somente despertar maior compaixão.
Mesmo no dia seguinte os guardas não saíam da cabeça de K.; esteve distraído no trabalho e para terminá-lo precisou ficar no escritório um pouco mais que no dia anterior. Quando ao ir para casa, passou outra vez pelo quarto de despejo, abriu-o como se fosse um hábito. Diante do que viu, ao invés da esperada escuridão, não soube o que pensar. Tudo estava como ele havia encontrado na noite anterior, no momento de abrir a porta. Os impressos e os tinteiros logo atrás da soleira, o espancador com a vara, os guardas ainda completamente despidos, a vela em cima da estante e os guardas que começavam a se queixar e gritar: "Senhor!". Imediatamente K. fechou a porta e bateu nela com os punhos, como se desse modo ela ficasse fechada mais firme. Quase chorando, correu até os serventes, que trabalhavam calmamente nas copiadoras e com espanto detiveram o seu trabalho.
-Limpem de uma vez o quarto de despejo! - bradou. - Nós estamos afundando na sujeira!
Os serventes estavam dispostos a fazê-lo no dia seguinte, K. assentiu com a cabeça, não podia forçá-los ao trabalho agora, tarde da noite, como na verdade havia pretendido. Sentou-se um pouco para manter os dois por um momento perto de si, pôs em desordem algumas cópias, acreditando com isso dar a impressão de que as examinava e depois, ao perceber que os serventes não ousariam ir embora ao mesmo tempo que ele, foi para casa cansado e sem pensar em nada.



"O Processo" será editado no Brasil em 1988. Aqui, o quinto capítulo do livro, traduzido por Modesto Carone

"O Espancador" (Der Pruegler) é o quinto capítulo do romance "O Processo" (Der Prozess), de Franz Kafka, na versão publicada postumamente pelo seu amigo Max Brod. Nele comparecem dois personagens secundários, Franz e Willem, guardas incumbidos, no famoso primeiro capítulo do livro, de efetuar a detenção, pela manhã, de Joseph K. em sua casa - a pensão da sra. Grubach - "sem que ele nada tivesse feito de mal". São guardas velhacos, corruptos e ladrões: um deles, Willem, toma acintosamente o café da manhã de K. e ambos querem subtrair as roupas de baixo do herói sob a alegação de que ele não vai precisar delas na prisão - além do que elas podem se "extraviar" no depósito da casa de detenção. No segundo capítulo, em que tem lugar o primeiro inquérito judicial do personagem central, K. denuncia esses incidentes no seu discurso de defesa perante o juiz de instrução.
A tradução aqui apresentada procurou acompanhar de perto as manhas do texto original, onde o realismo da linguagem cartorial de Kafka veicula a fantasmagoria, gerando uma atmosfera de terror onírico e o humor negro mais sutil.
(Modesto Carone)


© Copyright Empresa Folha da Manhã Ltda. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Empresa Folha da Manhã Ltda.