A TORMENTOSA ANGUSTIA DA VELOCIDADE


Como que allucinado em pós de uma miragem que cada vez mais delle se afasta, o homem moderno se debate á procura da velocidade absoluta

Publicado na Folha da Noite, sábado, 30 de junho de 1934

Neste texto foi mantida a grafia original

O seculo vinte nasceu sob um signo de febre e traz, em todas as suas actividades, um anathema de insatisfação.
Já nos seus albores, quando os motores a explosão começaram a ser aperfeiçoados e quanto a atmosphera passou a ser estudada como factor embaraçante da velocidade, a machina entrou para uma phase de angustiosa evolução.
Encarada de um ponto de vista exterior, accidental, essa evolução é uma maravilha; considerada, porém, no seu amago, nos estimulos primeiros que, dentro da eterna insatisfação da alma humana, a tornam possivel, essa mesma evolução é um tremendo supplicio.
Mal o homem, com as suas congeries de aço e os seus explosivos requintados - que extrae do seio da terra e transforma á luz da sua sabedoria scientifica - consegue uma velocidade apreciavel, logo a sua meta se afasta, fazendo com que a criatura humana corra, como doida, atrás de outra miragem, de outra velocidade mais vertiginosa, mais apparentemente inattingivel.
A principio, a locomoção de vehiculos não passava de sessenta kilometros horarios: dahi, a média foi subindo, até que, já agora, temos, para os aeroplanos, a velocidade momentanea de setecentos e dezoito kilometros; para os automoveis de quatrocentos; e, para os trens, pouco mais de cem. A via férrea, entretanto, parece que não se contenta - e faz nisso muito bem - com a retaguarda em que se encontra; e já se está estudando um trem electrico que, montado em rolamentos, ao envés de o ser em rodas communs, possa attingir a velocidade de quinhentos kilometros horarios.
O cliché que estampamos com estas linhas é uma visão de artista do referido trem. E' impossivel prever o exito dessa tentativa, como tambem é inutil procurar indagar do ponto a que chegaremos, em materia de velocidade, dentro de uns poucos annos. E' bastante que se diga que, quando attingirmos a velocidade de mil kilometros horarios, a criatura humana se mostrará ainda insatisfeita, porque o seu destino é correr - correr alucinadamente, não importa em que direcção, contanto que o seu corpo consiga locomover-se com uma rapidez cada vez mais approximada da do seu pensamento.

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