GRUPO DO SANTA HELENA: ERA DE ARTE

Publicado na Folha de S.Paulo, terça-feira, 29 de novembro de 1966

Neste texto foi mantido a grafia original
Marcou firme sua presença no cenario artistico brasileiro o Grupo do Santa Helena, assim chamado porque os artistas que o integravam tinham ateliês no velho edificio Santa Helena, na praça da Sé.
Foi um grupo que se desligou da arte pacifica que então dominava - lá pelos idos de 1934 - e partiu para composições modernas. Pouco os incomodavam as investidas de determinados setores da critica especializada ou até mesmo de seus companheiros. Estavam decididos a criar novas formas e marcaram em São Paulo um novo ponto de referencia na arte moderna brasileira.
Não para reviver a atuação do Grupo do Santa Helena naquilo que realizou há quase três decadas, mas sobretudo para pôr em foco o que hoje os seus participantes criam, a galeria 4 Planetas, que fica na rua Alta da rua Nova Barão, organizou uma exposição que será inaugurada hoje, às 19 horas. Ali estarão reunidas duas obras de cada um dos "helenistas" Bonadei, Rebolo, Clovis Graciano, Mario Zanini, Volpi, Pennacchi, Rizzoti e Manuel Martins.

Caminhos diversos

Alguns deles pintavam de maneira diferente da que hoje vemos. A transformação mais profunda ocorreu em Alfredo Volpi, que das casinhas e mulatas pulou com o tempo para portas e janelas e depois para as bandeirinhas. Afinal, se tornou pintor geometrico ou construtivista, embora a tematica tenha aproximação com a sua fase de bandeirinhas.
Bonadei e Rebolo tambem modificaram suas composições. As naturezas mortas e paisagens do primeiro aos poucos ganharam novas formas, com o cubismo dominando em alguns aspectos. Rebolo igualmente foi alterando o processo de composição, embora tal como Bonadei, jamais abandonasse o figurativismo.
Os demais integrantes do Grupo do Santa Helena - Graciano, Zanini, Rizzotti, Pennacchi e Martins - foram os que rigorosamente conservaram a sua linha de composição. Pode-se afirmar que nem sequer procuraram interessar-se pela linha abstracionista, mesmo parcialmente, mantendo-se fiéis à tematica figurativa.

Volpi

Dos integrantes do grupo, foi Volpi quem se projetou mais. Seus trabalhos já por três vezes estiveram na representação brasileira à Bienal de Veneza. Na Bienal de São Paulo, já conquistou o premio de "melhor pintor nacional".
Nascidos em Lucca, na Italia, em 1896, é o mais velho do Santa Helena. Veio para o Brasil com 18 meses e daqui nunca mais saiu, a não ser em 1950, quando ganhou premio de viagem à Europa.
Ele não sabe nem quer explicar como ocorreu a transformação de sua pintura; apenas salienta: "Pinto como sei e como acho que deve ser". Apesar de estar há meio seculo no Brasil, o artista ainda tem pronuncia peninsular.
Vive no Cambuci e passa temporada no Rio. Seus quadros são muito procurados e valem, em media, acima de um milhão de cruzeiros.

Mario Zanini

É paulista, nascido em 1907. Descendente de familia humilde, ainda adolescente frequentou a Escola de Belas Artes. Com o tempo amadureceu a composição e participou dos principais certames oficiais do país.
Fez viagem de estudos a Europa em 1950, com premio do Salão Nacional e viajou pelo país em 1956 com o premio Salão Paulista de Arte Moderna. Participou das três primeiras Bienais de São Paulo. Alem do Santa Helena, integrou outro grupo de vanguarda em São Paulo: a Familia Artistica Paulista.
Mario Zanini vive desde sua mocidade exclusivamente da pintura, esquivando-se de realizar mostras individuais. Fechado quase sempre em seu ateliê, é um artista que, sem pesquisar e sem poder ser enquadrado nos grupos de vanguarda, mesmo assim aparece como um dos valores representativos da moderna pintura figurativa brasileira.

Clovis Graciano

Tambem fez viagem à Europa, graças ao premio obtido do Salão Nacional de Belas Artes. Lá ficou três anos.
Em São Paulo estudou com Valdemar da Costa, mas logo seguiu seu proprio caminho. Suas figuras logo se tornaram caracteristicas e de facil identificação.
Clovis, que nasceu em Araras em 1906, está completando trinta anos de pintura figurativa. Participou de varios certames, nunca porem da Bienal de São Paulo. Recentemente lançou album de reproduções de desenhos. Suas pinturas e desenhos têm procura continua.

Bonadei

É outro de 1906. Faz exposições desde 1929, tendo estudado de 1930 a 1932 com Felipe Carone, em Florença.
A coleção de premios de Bonadei é grande e vai desde medalhas de bronze, prata e ouro, do Salão Paulista de Arte Moderna, até premio de viagem pelo país, premio Governador do Estado, culminando em 1962 com o premio de viagem ao exterior, do IX Salão de Arte Moderna. A exceção das 4.a e 5.a Bienais de São Paulo, figurou nas demais.
As telas de Bonadei têm aceitação continua dos colecionadores.

Rebolo

O segundo mais velho do grupo, Rebolo Gonzales (de 1903) é atuante no movimento artistico paulista e brasileiro.
Numerosas são suas participações em certames oficiais e varios os premios conquistados. O nome de Rebolo está agora sendo cogitado para figurar em sala especial na proxima Bienal de São Paulo.
Vale a pena ressaltar que Rebolo, como Volpi, eram pintores de parede.

Martins

Começou a pintar em 1931. Sua primeira mostra foi em 1937, no salão da Família Artistica Paulista.
Manuel Martins expôs tanto no Brasil como no exterior. Autodidata, nascido em 1911, o artista sempre reproduziu em suas telas e desenhos paisagens domesticas e tipos caracteristicos. Jamais tentou outra linha de trabalho.

Pennacchi

Italiano de nascimento, veio para o Brasil em 1929, após estudar nas Academias de Lucca e Florença.
Fulvio Pennacchi (1905) especializou-se em afrescos. Tem obras monumentais na Igreja NS da Paz, na capela do Hospital das Clínicas, na catedral de Uruguaiana e em varios bancos e hotéis. Em 1952 obteve a medalha de ouro do Salão Paulista de Arte Moderna. Desde 1962 dedica-se à ceramica policromica.

Rizzotti

É de Serrana, São Paulo, onde nasceu em 1909. Estudou decoração na Italia, o que lhe abriu caminho para a pintura.
Expôs na Novara e Turim. Figurou em varios certames brasileiros e, após dedicar-se à pesquisa, participou dos Salões Paulista de Arte Moderna de 1963, 1965 e 1966.

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