"JUCA PATO" PARA ERICO VERISSIMO

Terminou ontem a votação para a outorga do Premio "Juca Pato" ao intelectual do Ano". Saiu vencedor o escritor Erico Verissimo, que conseguiu 284 votos, contra 172 dados ao ex-presidente Janio Quadros.

Publicado na Folha de S.Paulo, terça-feira, 6 de fevereiro de 1968

Neste texto foi mantida a grafia original

Erico, vencedor do Premio "Juca Pato"

No 6º. concurso "O Intelectual do Ano", destinado a outorgar o premio "Juca Pato" ao vencedor, Erico Verissimo conseguiu uma margem de 112 votos sobre o seu maior concorrente, o ex-presidente Janio Quadros. No computo geral, votaram na UBE, 456 pessoas, entre intelectuais e representantes de entidades culturais. Erico Verissimo conseguiu 284 votos, Janio Quadros 172, Afonso Arinos de Mello Franco 2, Guimarães Rosa 5 e Nelson Werneck Sodré 12 votos. Após a proclamação de "O Intelectual do Ano", titulo que ficou com o autor de "O Prisioneiro", o presidente da UBE, escritor Raimundo de Menezes, enviou-lhe um telegrama congratulando-se pela sua eleição, que "acaba de ser legitimamente consagrado em pleito concorridissimo promovido pela UBE e patrocinado pela Folha de S. Paulo". Raimundo de Menezes, sobre o pleito, disse: "Sinto-me perfeitamente satisfeito com o resultado da votação para "O Intelectual do Ano", tendo em vista principalmente o entusiasmo que suscitou nos meios intelectuais do país. Jamais a UBE, contando com o prestigio da Folha de S. Paulo, manteve em tão alto gabarito esse pleito, que empolgou até mesmo aos indiferentes à literatura".
Os defensores da candidatura Janio Quadros, disseram que ex-presidente, apesar de derrotado, se sente engrandecido com a votação obtida, para ele altamente honrosa, sobretudo tendo um competidor da estatura de Erico Verissimo, que é seu amigo pessoal.

O homem e a obra

Em outubro de 1961 Erico Verissimo queria parar de escrever. Já era o unico escritor brasileiro, com excessão de Jorge Amado, que vivia de seus livros traduzidos para o italiano, inglês, francês, hungaro, finlandês, sueco, norueguês. Era o escritor famoso e profundamente humano de "Olhai os Lirios do Campo", "Clarissa" e "O Tempo e o Vento", em que a trilogia "O Continente", "O Retrato" e "O Arquipelago" traça a fisionomia politico-social do Rio Grande do Sul. Mas em 1965 contraria 1961 e lança em São Paulo "Sr. Embaixador', que se tornou "best-seller" nacional, traduzido para o inglês e comentado pela imprensa norte-americana. É a consagração total. Na ocasião disse que "Sr. Embaixador" era a outra face do "Gato Preto em Campo de Neve", relato de uma viagem pelos EUA. Definia "Gato Preto" como "uma viagem pela superficie do país antes da II Guerra Mundial e do que se seguiu".
Em 1961 Erico Verissimo colocava claramente seu humanismo. Declarava-se pelo socialismo humanista e contrario à violencia. Sem ser catolico, predizia que a Igreja "está tomando posições socialistas". Afirmava que o Brasil não tinha necessidade de derramar sangue: "O povo brasileiro já tem força politica, eleitoral e moral para promover uma revolução sem violencia".
Em 1966, depois de uma longa viagem pelos EUA, Europa e Israel, Erico Verissimo volta ao Brasil assustado com um disturbio cardiaco. Ele já tivera um enfarte em 1961. E volta maravilhado com as experiencias socialistas que tinha visto em Israel. Ficou tão encantado com o país que resolveu escrever "Israel em Abril". Mas larga o assunto para começar em agosto de 1967 a escrever "O Prisioneiro", sobre a guerra no Vietnã.

Neutralidade impossivel

Em outubro, quando fazia a revisão desse livro, declarava: "Cada escritor tem o direito de escrever sobre o que quiser, mas me parece que nestes tempos que correm a neutralidade não é mais possivel."
Revela que tomou posição ao escrever o livro e o dedica aos seus três netos norte-americanos, que lhe foram dados por sua filha Clarissa: "Um deles dentro de oito anos estará em idade militar. Dói-me a idéia de que esse menino possa um dia ser tirado do convivio de sua familia, de sua comunidade, de sua universidade para se transformar num "marine" e lutar em algum remoto lugar da Asia, da Africa ou da America do Sul e lá morrer, desintegrar-se moralmente e transformar-se num assassino."
A guerra, o racismo e muita ignorancia que muitos chamam de civilização ocidental são criticados de uma só vez nessa obra. Erico Verissimo reafirma mais radicalmente o seu humanismo.
Testa alta, cabelos brancos, um ar tranquilo mas profundo e um tanto melancolico, em 1965, depois de lançar "Sr. Embaixador" em tarde de autografos em São Paulo, diz: "Sou agnostico mas gostaria de ter fé religiosa. O Cristianismo só poderá sobreviver se não se alienar da realidade social."

Rico, pobre, escritor

No começo Erico Verissimo teve azar. Nasceu rico, em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, a 17 de dezembro de 1905. O pai, de tradicional familia de fazendeiros, pretendia mandá-lo para a Universidade de Edimburgo, na Escocia. Veio a ruina da economia familiar e Erico teve que trocar a Escocia por um modesto ginasio de Porto Alegre. Depois voltou para Cruz Alta, trabalhou como balconista num armazem de secos e molhados, largou o emprego tornou-se bancario e socio de uma farmacia. Como caixeiro na farmacia lia muito e o negocio foi à falencia.
Em 1930 escreveu alguns contos que foram publicados pelos jornais de Porto Alegre. Mudou-se para lá, procurando emprego como desenhista. Andou pintando vitrinas da casa Natal, uma loja de brinquedos, mas percebeu que aquela não era sua vocação. Mas seus contos tinham sido lidos e Erico Verissimo foi convidado para secretario da "Revista do Globo". Pouco depois já era diretor da revista. Em 1931 lançou "Fantoches", livro de contos, um fracasso: a edição inteira foi consumida, não pelo publico, mas por um incendio nos depositos da editora. Com todos esses contratempos, Erico Verissimo não desanimava. Em 1932 volta com "Clarissa", que foi bem recebido pela critica, mas os sete mil exemplares da edição levaram cinco anos para se esgotarem. No ano seguinte, depois de traduzir "Contraponto", escreveu e publicou "Caminhos Cruzados" que ganhou o premio Graça Aranha. Dai por diante Erico Verissimo passou a ser um escritor lido. Nesse mesmo ano publicou "Musica ao Longe" e conquistou o Premio Machado de Assis.
Depois vieram, em 1935, "A vida de Joana d'Arc" e uma serie de seis pequenas historias para crianças. Em 1936 reune essas historias num livro intitulado "Aventuras de Tibicuera" e por isso é premiado pelo Ministerio da Educação. Lança em seguida "Um Lugar ao Sol".
A consagração é em 1937 com "Olhai os Lirios do Campo", depois transformado em filme argentino. Em dois anos (1937, 38) foram tirados 60 mil exemplares. Em 1939 vem "Saga", em 1941 vem a viagem para os EUA e as impressões sobre o país dão "Gato Preto em Campo de Neve". Mais historias infantis, "Três Porquinhos" e "A Vida do Elefante Basilio", no retorno ao Brasil. Mais uma viagem aos EUA para lecionar português e literatura brasileira por um ano na Universidade de Berkeley, na California. Escreveu na ocasião, em inglês, "Brazilian Litterature", publicado pela casa Macmillan em 1945. Novamente no Brasil, publicou "A volta do Gato Preto", que registra novas observações e experiencias norte-americanas.
Até que aparece "O Tempo e o Vento", com as três partes, "O Continente", "O Retrato" e "O Arquipelago", esta ultima publicada em 1961. E a confirmação do grande escritor que queria pagar por aí com "Sr. Embaixador" publicado em 1965. Agora é tempo de espera de "O prisioneiro" sobre o Vietnã.

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