MULHERES QUE NUNCA MORREM


Publicado na Folha da Manhã, domingo, 1º de dezembro de 1929

Neste texto foi mantida a grafia original

Catharina II

Prevalecia no caracter de Catharina o genio autoritario. Mesmo em amor, sabendo ser mulher, e uma mulher seductora, cheia de encantos e requintes, ella manifestava essa indole. Catharina manejava o coração com a cabeça e a vontade, mantendo em amor a inconstancia cruel e glacial dos homens.
Para conquistar um coração que lhe apetecesse, a imperatriz despendia milhões e usava de todo o artificio que a mulher conhece para a posse do seu novo amor. E com o uso das duas forças, ella seduzia facilmente a victima, entregando-se como mulher e possuindo como homem.
No periodo da saciedade, ella se desvencilhava do amante pela fórma que lhe parecia mais conveniente e rapida. Se preciso, ella o mandaria matar.
Uma das suas victimas foi Mitrowitch, um magnifico soldado, que, cheio de ardor e confiança se entrega ao amor venenoso da caprichosa soberana.
Mitrowitch apaixonara-se pela imperatriz. E como uma paixão, depois de satisfeito o seu capricho, podia trazer-lhe contrariedades, Catharina mandou matal-o summariamente. Olhando para a morte com a firmesa de um valente, Mitrowitch pronunciou, no derradeiro momento da vida: - Não comprehendo. - Ao que a imperatriz respondeu sorrindo, quando teve conhecimento da phrase: - Elle não comprehendia que eu tenho cem paixões a viver e que elle não possuia senão uma para dar-me.
Catharina da Russia foi uma grande libertina. Ao ponto de subjugar a Russia inteira à sua vontade, ella reunia o prazer das suas orgias intimas, as quaes, differindo das orgias de outras mulheres poderosas, eram sempre feitas a dois, nos seus aposentos, e, embora servisse iguarias raras e preciosissimas ao eleito, nenhum criado apparecia, nenhum olhar estranho perturbava o colloquio regio. A mesa que festejava as nupcias macabras da paixão maldita, era milagrosamente servida, com os acepipes mais exquisitos. Ella, offerecendo manjares ao querido, sorvia as palavras de amor que elle lhe dizia, antegosando o beijo tão apetecido, olhando o olhar que lhe queimava o espirito.
Catharina raramente tomava parte na refeição. Ella se alimentava pouco e tinha horror ao vinho, pois, uma das suas preoccupações era não ter nariz vermelho. Ao prazer de comer, ella preferia o de ver os olhos do seu novo amor, o de ver a alegria despreoccupada e feliz do homem que encarnava o capricho amadurecido, que ella colhia em suas garras malvadas.
Aquelle capitulo significava a condemnação do heróe amado. E, entretanto, cada eleito, ebrio de ventura, envaidecido pela attenção que a poderosa mulher lhe concedia, enlouquecido de paixão pela esplendida creatura que se lhe entregava, exultava, no apogeu da felicidade, no deslumbramento da gloria amorosa.
A rainha era uma mulher encantadora, quando seduzia. Ella tinha toda a graça feminina, quando, a sós com o amado, ella o cercava de pequenas attenções, sorrindo-lhe à alegria, deixando-se colher, entregando-se à caricia ardente do infeliz apaixonado.
O enamorado esquecia-se da imperatriz e possuia a mulher. E a imperatriz, depois, volvendo à soberania da sua glacialidade estranhamente perversa, eliminava o homem que a havia amado. Ella não suportava que no seu reino existisse um homem que conhecesse os mysterios da sua natureza. Quando a saciedade, soffreando-lhe o delirio apaixonado, lhe illuminava a rasão, ella, rancorosamente procurava no livro da perversidade que era o missal da sua alma, a sentença que devia cahir sobre a cabeça do homem que ousara inspirar-lhe amor.
No período da paixão, periodo que ás vezes era mais longo, e outras vezes curtissimo, ella despendia sommas fabulosas com os amantes.
Catharina era linda. Possuia a perfeição de traços que lhe permittia ser sempre formosa. Falconnet fez um busto da grande imperatriz, dando-lhe às linhas a excelsa belleza. Diderot, que sabia pintar, fez-lhe igualmente o perfil. Em todos os vestigios que ha no mundo, relembrando a existencia da famosa esposa de Pedro III, ella apparece sob a fórma perfeita de uma belleza esplendida. Em costume de homem, costume que usava quasi sempre, ella era graciosissima, o que aliás, concorria para o requinte da sua seducção sobre os homens, que a comparavam a Diana entre as nymphas, perfurando as florestas com as flexas recebidas de Jupiter, quando ella cercada pela côrte corria em busca de caças, um dos seus prazeres favoritos.


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