AS IDÉIAS DO NORTE



Publicado na Folha de S.Paulo, domingo, 12 de outubro de 1997

CÁSSIO STARLING CARLOS
Editor-adjunto de Especiais

A filosofia norte-americana, durante muito tempo, teve seu passaporte no mundo intelectual colocado sob suspeita.
Para os acadêmicos formados na tradição do pensamento europeu, ela não passava de uma derivação secundária e, às vezes, extravagante, das idéias anglo-saxãs.
Filosofia de qualquer modo jovem, cujo florescimento aconteceu em meados do século 19, com Emerson, Charles Peirce e William James, ela veio a adquirir ao longo deste século um formidável corpus teórico, enriquecido pelo diálogo que estabeleceu com os intelectuais europeus exilados na América depois da ascensão do nazismo entre eles, membros do Círculo de Viena e da Escola de Frankfurt.
Hoje, quando o pensamento europeu atravessa uma de suas crises mais fortes, a filosofia norte-americana postula, com sua incrível produtividade e heterogeneidade, o lugar de referência nas discussões contemporâneas, valendo-se de sua preocupação com as questões mais urgentes da cultura e da história.
No Brasil, com exceção da escola analítica norte-americana, esta filosofia permanece menosprezada, uma situação que tende a ser revertida pela crescente publicação de seus pensadores no país.
Neste mês, um dos principais trabalhos de Richard Rorty, hoje o mais influente pensador dos EUA, será lançado pela Editora Relume-Dumará: ''Ensaios Filosóficos''. A Martins Fontes acaba de publicar o mais importante trabalho do polêmico John Searle: ''A Redescoberta da Mente''. Stanley Cavell terá pela primeira vez uma obra sua lançada no Brasil, pela Editora 34: ''Esta América Nova, Ainda Inabordável''. Rorty escreve na seção ''Autores'' da Folha desde 1995. Cavell passa a escrever, a partir de hoje, nesta mesma seção, publicada no Mais!.
Conceber uma filosofia norte-americana exige, antes de tudo, reconhecer uma tradição à qual ela se vincula e a partir da qual se esforça para formular problemas com originalidade.
Para ajudar a compreender as conexões históricas e teóricas dos pensadores dos EUA, a Folha entrevistou o professor Bento Prado Jr., um dos principais filósofos brasileiros.
Na entrevista a seguir, Bento Prado Jr. questiona a tese do isolacionismo do pensamento nos EUA em relação à tradição européia, aponta sua influência nos departamentos de filosofia brasileiros e traça uma outra geografia, mental, na qual as idéias podem viajar sem precisar de visto de entrada.

Folha — É possível falar de uma tradição filosófica norte-americana ou seria mais correto falar dela como uma corrente do pensamento anglo-saxão?

Bento Prado Jr.
É difícil imaginar uma filosofia sem laços com a Europa. É preciso lembrar que, como dizia meu amigo Lebrun, "a filosofia é grega, como o cinema é norte-americano". Ou, como dizia Husserl (se não me engano, na "Krisis"), depois de Tocqueville, que a civilização americana era a mais longínqua extensão dos limites da Europa.
Isto dito, é preciso reconhecer que, ao longo da história da filosofia norte-americana, se sucederam estilos diferentes de relação com a Europa. Assim, se com Emerson e Thoreau o pensamento se empenha na "redescoberta da América", em sua paisagem física e moral, ele o faz com a ajuda do idealismo alemão e do romantismo inglês (ele próprio impregnado pelo romantismo alemão). Em seguida, se é possível dizer que o pragmatismo norte-americano é inteiramente autóctone, não é possível ignorar que seus fundadores estavam perfeitamente familiarizados com toda a história da filosofia, da antiga e medieval ao idealismo alemão. William James, por exemplo, talvez o mais americano dos filósofos, nada ignorava da cultura européia.
Paradoxalmente, talvez seja com a imigração maciça dos filósofos da Europa central, que fugiam da ascensão do nazismo na década de 30, que a filosofia norte-americana rarefez sua comunicação com a cultura hoje dita "continental". O isolacionismo norte-americano, obra de europeus? É que esses filósofos se fecharam numa concepção estreitamente técnica, "científica" ou profissional da filosofia. Cortando os laços que unem a filosofia à vida, à sociedade e à cultura, o positivismo abandonara a tradição da própria filosofia e esquecera sua origem européia.
Mais paradoxalmente ainda, é justamente por retornar à tradição norte-americana anterior à hegemonia do positivismo nas universidades, ao transcendentalismo romântico e ao pragmatismo que autores como Stanley Cavell e Richard Rorty podem reatar a conversação com pensadores "continentais", de Nietzsche a Sartre e Heidegger. Tudo se passa, enfim, como se uma tradição propriamente norte-americana só pudesse se desenhar e se afirmar na sua originalidade ao relembrar (e não negar) a tradição de que se desvia, mas que permanece como uma baliza essencial.

Folha — O que distingue os pensadores norte-americanos do pré-Segunda Guerra dos atuais filósofos?

Prado Jr. Quando se fala de um novo estilo (Cavell, Rorty etc.) ou de um estilo "pós-analítico", é preciso ter consciência de que falamos de uma mudança que não afetou o "mainstream" da filosofia universitária norte-americana. É claro que o positivismo morreu e Quine foi quem lançou a primeira pá de cal, ao demolir a clara distinção entre enunciados analíticos e sintéticos. Mas isso não significa que a restrição da filosofia à semântica lógica e à epistemologia tenha sido abandonada nos departamentos norte-americanos de filosofia. Assim, Arthur C. Danto não vê diferença essencial entre a filosofia produzida hoje nas universidades e aquela que era produzida há várias décadas.
Prova disso é que pensadores como Rorty, ao iniciarem o seu movimento herético de distanciamento do modelo estritamente analítico, acabaram por deixar os departamentos de filosofia para integrar-se a departamentos "literários".
Sem dúvida, as universidades dos Estados Unidos reservam um largo espaço de acolhimento à filosofia alemã e à filosofia francesa, mas raramente nos departamentos de filosofia. É, aliás, o que eu já percebia em meados da década de 60, quando soube do entusiasmo provocado nos Estados Unidos por Michel Foucault, cujo estilo sempre esteve nos antípodas do seco estilo "profissional" dos filósofos daquele país. Diante de minha surpresa, Foucault desfez o equívoco: tinha feito suas conferências em um departamento de teoria literária.

Folha — O sr. participou recentemente de um debate em Belo Horizonte com o filósofo Richard Rorty. Participou também da edição do primeiro livro de Cavell a sair no Brasil, como revisor técnico. Daquilo que o sr. tem acompanhado da produção filosófica norte-americana contemporânea, o que lhe tem causado mais interesse?

Prado Jr. Não foi a primeira vez que me encontrei com Rorty. Mas foi, de fato, um pouco o acaso dos encontros internacionais e de atividades editoriais que chamou nos últimos anos minha atenção para a atual filosofia norte-americana. E a primeira reação foi a da surpresa: a de encontrar, sob a pena de filósofos de formação analítica, preocupações que me obsedavam havia muito, a mim que me formara numa tradição muito diferente. Paulo Arantes, comentando minha simpatia pelos escritos de Rorty, dizia ironicamente: "Rorty... finalmente, diria Bento nas entrelinhas mas não pode dizer com toda a veemência, descobriu, 30 anos depois de nós, o charme da filosofia francesa: é portanto um dos nossos!" ("O Relativismo Como Visão do Mundo", org. de A. Cícero e W. Salomão). Dizia com ironia e alguma injustiça, já que está longe de mim a arrogância implícita no raciocínio que me é atribuído, mas sobretudo porque, nos últimos anos, comecei a descobrir o charme da filosofia analítica norte-americana, a contracorrente da tendência de Rorty. Penso aqui em um filósofo particularmente interessante: Nelson Goodman. Sem abandonar de um milímetro a ortodoxia do método analítico, e ampliando sua esfera de aplicação de modo a englobar a estética, na sua obra de maturidade, Nelson Goodman (por exemplo em "Ways of Worldmaking" e "Languages of Art") propõe, ao lado da idéia de verdade, a idéia mais larga de "correctness". Assim, abre espaço para uma análise dos estilos de estruturação estética da experiência algo, talvez, como uma nova teoria, distante de todo psicologismo, da "imaginação transcendental", que se constitui por meio da análise da obra de arte na sua singularidade a mais concreta. Aliás, ainda na década de 60, e sempre a pedido de uma editora, tive o prazer de conhecer a obra de G. Santayana, sobre a qual escrevi algumas páginas. Pensando bem, minha simpatia pela filosofia norte-americana é um pouco mais antiga do que me lembrava.

Folha — Por que os norte-americanos se mantiveram à parte nas discussões centrais da filosofia contemporânea sobre o fim da metafísica, a crise da razão e a dissolução do sujeito?

Prado Jr. Cabe dizer, em primeiro lugar, que não há problema obrigatório em filosofia. Talvez o problema do filósofo consista justamente em justificar a pertinência dos problemas que escolhe para construir sua filosofia. Portanto, para responder sua pergunta, seria primeiro necessário justificar a urgência dos problemas do fim da metafísica, da crise da razão e da dissolução do sujeito.
Quanto à questão do fim da metafísica, parece-me que remete antes à filosofia heideggeriana ou pós-heideggeriana do que à filosofia contemporânea como um todo. Lembro mais uma vez Lebrun, que dizia que a filosofia tem mais a natureza de um arquipélago do que de um continente. Um continente, sim, pode ter um centro; onde poderíamos procurar o centro de arquipélago? Certamente não o encontraríamos em nenhuma das ilhas que o constituem.

Folha — Considerando-se a experiência histórica, de democracia liberal, dos EUA, o pensamento norte-americano oferece mais alternativas ou limitações para a reflexão do político e do ético?

Prado Jr. Toda reflexão política, e mesmo ética, é feita "em situação" e é particularmente difícil ponderar ou hierarquizar situações. É certo que cada situação predetermina o que é mais ou menos acessível ao olhar teórico, e o que é problemático para o alemão pode ser menos problemático para o norte-americano e vice-versa. Mas isso não impede que os mesmos problemas éticos e políticos possam animar uma discussão interessante entre um filósofo alemão e um filósofo americano. Como é o caso da constante e amigável discussão sobre esses problemas entre Habermas e Rorty.
Em todo caso, e sem fazer, como o faz Rorty, uma profissão de fé liberal ou subscrever uma filosofia política, é preciso reconhecer que a universidade americana é antes favorável do que desfavorável à discussão filosófico-política. Mesmo porque, ao lado dos filósofos que advogam o liberalismo e a tradição norte-americana, não faltam os críticos desse mesmo liberalismo; ou, pelo menos, não faltam aqueles que, como T. McCarthy, criticam Rorty por não resgatar, com o pragmatismo de Dewey, o seu radicalismo político. De resto, a presença volumosa dos imigrantes nessa universidade permite a importação e a expressão de perspectivas que não floresceriam, talvez, espontaneamente no local. Para dar apenas um exemplo: num livrinho introdutório e esclarecedor sobre a filosofia pós-analítica norte-americana (Giovanna Borradori, "The American Philosopher", Univ. of Chicago Press), uma filósofa italiana inclui, na vertente política dessa filosofia, ao lado de Thomas Nage, Ronald Dworkin, T.M. Scanlon e outros, o nome de Roberto Mangabeira Unger, "the brazilian of Yale", nas palavras de Rorty.

Folha — As escolas brasileiras de filosofia são, historicamente, inclinadas à influência européia, sobretudo da França e da Alemanha. De que modo esta relação histórica determina a resistência ou a indiferença acadêmica no Brasil ao pensamento formulado nos Estados Unidos?

Prado Jr. Tenho a impressão que sua descrição é mais verdadeira para o passado (embora um passado próximo) do que para o presente. Indo um pouco mais longe no tempo pode-se dizer que, nos meus tempos de estudante, sim, havia perfeita indiferença pela filosofia produzida nos Estados Unidos. Lembro-me, mesmo, de minha irritação durante a leitura da "Filosofia Científica", de Hans Reichenbach, um dos imigrantes que levou para os Estados Unidos o positivismo (particularmente quando qualificava o hegelianismo como o paradigma da má filosofia, ou quando dizia que o "To be or not to be", de ''Hamlet'', não exprimia um dilema e sim uma tautologia). Mas, mais do que resistência ou indiferença, tratava-se de ignorância. Hoje em dia, a paisagem é completamente diferente. Num congresso recente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia um colega francês, militante antianalítico, ficou escandalizado: mas só se faz filosofia analítica! O que era exagero, certamente. Mas não deixei de responder-lhe com uma pergunta: e, no resto do mundo, é muito diferente?

Folha — Em que termos se poderia estabelecer uma conversação entre estes dois pensamentos "jovens", o brasileiro e o norte-americano?

Prado Jr. Sem dúvida, trata-se de uma conversação que nos interessa a nós, brasileiros, no mais alto grau. A despeito da gigantesca distância que nos separa dos Estados Unidos em termos de riqueza material e cultural, há algo de comum: uma posição periférica no mundo, num passado não muito distante para os Estados Unidos, no presente para o Brasil. Nem faltará a expressão literária do sentimento da oposição periférica nas duas literaturas ou do espírito do "transoceanismo", da dolorosa aspiração à uma inacessível europeização, com todo o esnobismo que isso implica. Basta lembrar, no que concerne ao país do norte, a personalidade literária de T.S. Eliot e seu ascético e penoso esforço de anglicização total. Pensemos, também, nos dois casos, a composição da população, a volumosa imigração européia, as marcas deixadas pelo escravismo, o modo de ser multirracial. Se filosofia tem algo a ver com cultura e sociedade, é claro que a experiência norte-americana deve ser iluminadora para quem reflete no Brasil.
Mas, se temos esse interesse, não sei se já temos os recursos para encetar coletivamente essa conversação. Se a filosofia americana é "jovem" como a nossa, ela dispõe, ao contrário da nossa, de mais de uma tradição. A filosofia brasileira, de seu lado, e aqui concordo com Paulo Arantes, ao contrário da literatura e das ciências sociais, não completou seu ciclo de formação. E é só quando esse ciclo se fecha que se pode falar propriamente de tradição, como um facho que uma geração pode transmitir para a que se segue. Em vão procuraríamos em Tobias Barreto, por exemplo, o instrumento para descrever, ou simplesmente inventar, uma tradição brasileira de filosofia, como Stanley Cavell fez com Emerson e Thoreau.


FILOSOFIA NORTE-AMERICANA

PIONEIROS


Ralph Waldo Emerson (1803-1882) Embora tenha sido um leitor ávido de filosofia, religião e literatura, Emerson não foi um pensador sistemático. Influenciado pelos românticos ingleses e alemães, é considerado o expoente do transcendentalismo. Para os transcendentalistas, a razão e não o mundo das aparências é o único meio de atingir a "verdade" filosófica. Idealista, Emerson acreditava na evolução contínua do espírito. Como os românticos, postulou a interação entre natureza e razão, mas a contrabalançou com a necessidade de realização prática de tais princípios. Escreveu, entre outros, ''Natureza'' (1836) e ''Ensaios'' (1841).


Henry David Thoreau (1817-1862) Escritor e naturalista, Thoreau teceu suas considerações filosóficas a partir da observação da natureza em "Walden", (1854), sua obra mais importante. Fez parte, junto com Emerson, do movimento transcendentalista. Reformador, pregou a desobediência civil ao facilitar a fuga de escravos. Seu ensaio ''Desobediência Civil'', de 1849, influenciou a ação política de líderes do século 20, como Gandhi e Luther King.

Charles Sanders Peirce (1839-1914) Foi o primeiro a formular o termo pragmatismo. Lecionou filosofia e química. Em dois artigos fundamentais ''A Fixação da Crença'' e ''Como Tornar Nossas Idéias Claras'' (1877-78), Peirce estabeleceu os fundamentos de sua filosofia, procurando superar a dicotomia entre signo e pensamento. O signo, como convenção social, supõe um objeto de que se fala o referente e uma pessoa que o interpreta. Assim, no ato de interpretar de transferir valores ao signo a pessoa que interpreta se torna, ela própria, um signo.

William James (1842-1910) Foi o sistematizador do pragmatismo. Influenciado pelo místico Swedenborg, James se distingue de Peirce por dar maior valor aos fenômenos psíquicos. Em seus ''Princípios de Psicologia'', de 1890, criticava a psicologia, defendendo uma abordagem filosófica dos problemas psíquicos. Em seu ensaio mais famoso, ''A Vontade de Acreditar'', de 1897, ataca violentamente o neo-hegelianismo e o darwinismo social, acusando-os de desacreditar o poder pessoal do indivíduo. Para James, o indivíduo não se pode fixar em uma crença moral ou religiosa. Ele deve procurar a novidade, a ''vontade de acreditar'' que está além de quadros conceituais previamente definidos. Foi irmão do escritor Henry James.

John Dewey (1859-1952) Educador e reformista social, a princípio influenciado pelo idealismo de Hegel, Dewey, no final dos anos 1890, passou a se dedicar a questões mais objetivas, como prática do ensino. Suas idéias inovadoras modificaram profundamente as práticas pedagógicas no final do século 19 nos EUA. Para Dewey, a criança é uma criatura ativa e inquisidora. Assim, cabe ao educador ''alimentar'' esta disposição da criança para o conhecimento e para o novo. Suas teses mais importantes estão em ''Experiência e Natureza'', de 1925.


CONTEMPORÂNEOS

Nelson Goodman (1906) — O pensamento de Goodman propõe que toda criação artística é um objeto único. Para Goodman, não é possível haver semelhança entre objetos distintos. Cada obra-de-arte constituiria, desse modo, uma "versão" fechada do mundo.

Willard van Orman Quine (1908) — É o filósofo americano mais influente do pós-guerra. Em ''A Partir de um Ponto de Vista Lógico'' (1953), refutou as teses dos positivistas lógicos do Círculo de Viena, como Carnap. Estudioso das relações entre lógica e linguagem, Quine criticou a distinção entre enunciados ''analítico'' e ''sintético'', chamando-a de artificial. Para ele, todo enunciado deve sua existência, em primeiro lugar, à realidade empírica —a realidade objetiva—, e não apenas à linguagem.

Donald Davidson (1917) — Leciona na Universidade da Califórnia. Foi discípulo de Quine, mas logo criticou a concepção de linguagem de seu mestre, chamando-a de cartesiana. Para Davidson, Quine crê que a linguagem e o pensamento sejam capazes de ''organizar'' a realidade dos sentidos. Ao contrário, linguagem, mundo e pensamento constituem um todo interligado, que se influencia mutuamente. Assim, essas partes não podem, de modo algum, ser consideradas em separado. Suas teses se encontram sobretudo em ''Ações e Outros Eventos'' (1980) e ''Da Verdade e da Interpretação'' (1984).


Thomas S. Kuhn (1922-1996) — Filósofo da ciência, foi professor em Harvard. Em "A Estrutura das Revoluções Científicas" (1962), sua obra mais importante, Kuhn critica a tese de que a história da ciência seja uma mera acumulação de dados e teorias bem-sucedidas. A ciência, ao contrário, é resultado de fracassos e passos em falso. Sua evolução, para Kuhn, é fruto da ruptura com paradigmas que se tornaram insuficientes. As teses de Kuhn acabaram por colocar em xeque, no fim dos anos 60, a crença na racionalidade e objetividade da ciência.

Arthur C. Danto (1924) — É professor da Universidade de Columbia. Seu pensamento destaca-se pelo variedade de interesses. À formação estritamente analítica vem se juntar o interesse pelo moral, epistemologia e filosofia da história. Mas sua originalidade está na ligação entre filosofia e estética, em que o instrumental analítico é utilizado para revelar a beleza intrínseca da obra-de-arte. Assim, em "A Transfiguração do Lugar-Comum'' (1981), Danto defende que a filosofia deve "decompor" a obra-de-arte para, então, "reconstruí-la" a partir de um novo prisma.

Hilary Putnam (1926) — Professor em Harvard, tem uma vasta obra filosófica. Putnam interessou-se por ética, filosofia da linguagem e epistemologia. Leitor dos pensadores frankfurtianos, como Habermas, apoiou, nos anos 60, os protestos contra a Guerra do Vietnã. Essa inquietude reflete uma crítica à compartimentação intelectual dos filósofos analíticos, como Carnap. Para Putnam, a filosofia não pode se restringir a construir arcabouços conceptuais, mas incorporar a realidade empírica à esfera dos conceitos. Suas principais teses estão em ''As Muitas Faces do Realismo'', de 1987.

Richard Bernstein (1932) — Professor da New School of Social Research (Nova York), Bernstein estuda a relação entre o pragmatismo de Peirce e o marxismo. Bernstein nega a possibilidade das grandes sínteses totalizadoras. Mas, ao mesmo tempo, admite que isso levou ao esvaziamento do termo "humanismo". A solução estaria em adotar uma postura pragmática, admitindo que as relações entre os homens não são mais naturais, mas, sim, "construídas". Escreveu, entre outros, "Além do Objetivismo e do Relativismo - Ciência, Hermenêutica e Práxis", de 1983.

Robert Nozick (1938) — Também professor em Harvard, Nozick combinou o rigor da filosofia analítica com o anarquismo inspirado em Henry Thoreau. Em "Anarquia, Estado e Utopia", Nozick defende a idéia de "Estado mínimo". Um Estado de grandes proporções significa coerção aos direitos do indivíduo. Já em "Explicações Filosóficas" (1981), seu livro mais famoso, Nozik critica a excessiva atomização da filosofia atual. Fechada em fórmulas muito elaboradas, a filosofia, para Nozick, é hoje incapaz de "compartilhar" o conhecimento com o resto da humanidade.


© Copyright Empresa Folha da Manhã Ltda. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Empresa Folha da Manhã Ltda.