A GUERRA DE 32

Publicado na Folha de S.Paulo, domingo, 5 de julho de 1992

João Batista Natali
Da Reportagem Local


O movimento de 1932 começou 23 meses antes que o governador Pedro de Toledo declarasse o início da rebelião de São Paulo e as tropas do general Isidoro Dias Lopes disparassem o primeiro tiro.
O desconforto nasceu com a Revolução de 1930. Ela depôs um paulista, o presidente Washington Luiz, e impediu a posse do também paulista Júlio Prestes como seu sucessor. Eram ambos dirigentes do Partido Republicano (PRP), que obviamente foi empurrado para a oposição.
A interventoria de São Paulo foi assumida pelo general Hastinfilo de Moura. Ele simpatizava com o Partido Democrático (PD), força política menos compromissada com a oligarquia e partidária do voto secreto e da modernização política. Mas tanto o PD quanto o PRP sentiram-se humilhados quando Getúlio, chefe do governo provisório, indicou como sucessor de Hastinfilo o tenente João Alberto. Outro militar da geração do tenentismo, Miguel Costa, assumiu o comando da Força Pública, atual Polícia Militar.
Tudo isso ocorreu em fins de 1930. Caracterizava-se o conflito entre de um lado os tenentes - partidários de uma modernização pilotada por um regime centralizador - e de outro o PD e o PRP, que formularam, cada um a seu modo, duas reivindicações:
1 - O comando político de São Paulo para os paulistas;
2 - O restabelecimento da ordem constitucional.
As duas reivindicações estavam acopladas à viabilização de um Brasil confederado, em que São Paulo exerceria sua autonomia econômica e política. O patriotismo regionalista era insuflado pela oligarquia do café, que temia a perda de controle sobre um produto que sofria os efeitos da crise mundial. O "paulistanismo" tinha ainda como chamativo o contraste entre a situação prefalimentar das finanças do Estado e o fato de só 20% dos impostos aqui arrecadados retornarem sob a forma de benefícios da União.
O chefe do governo provisório, Getúlio Vargas, prosseguiu numa operação de desgaste. Destituiu o general Isidoro do comando da 2ª Região Militar por suas simpatias com o PD. Indicou como interventor o civil paulista Laudo de Camargo, mas colocou obstáculos para que ele governasse com dirigentes do PD e do PRP. Camargo foi sucedido pelo coronel Manuel Rabelo, o que alimentou a propaganda de que os revolucionários de 30 queriam manter São Paulo sob "ocupação militar". João Alberto e Miguel Costa, os dois "tenentes", criavam seus próprios partidos políticos.
Getúlio já havia convocado, em 1931, eleições para uma assembléia constituinte. Mas os tenentes defendiam, via Juarez Távora, o adiamento do pleito. Vieram também os casuísmos, como a redução de representatividade demográfica da bancada a ser eleita por São Paulo.
O paulistanismo foi então ganhando um poder de mobilização nascido na classe média. A Liga de Defesa Paulista promoveu em janeiro de 32 um comício tão apaixonado quanto o seriam, em 85 e - guardadas as proporções - as manifestações pelas diretas-já. O governo provisório lançou um sinal de alarme. O general Góis Monteiro, homem forte de Getúlio, acusou São Paulo de separatismo.
Paralelamente, o PD rompia com o governo central - ao qual se aliara três anos antes como força paulista de oposição à candidatura presidencial de Julio Prestes - e formava com o PRP a Frente Única Paulista (FUP). As máquinas dos dois partidos ramificavam seus tentáculos clandestinos para a organização da guerra civil. O cheiro de pólvora no ar ficava cada vez mais forte. Emissários da FUP foram despachados para obter a adesão do Rio Grande do Sul e de Minas.
Maio de 32 foi um mês crucial. Osvaldo Aranha, ministro da Justiça, veio a São Paulo negociar uma composição apaziguadora do secretariado paulista. Mas no mesmo dia foram empastelados dois jornais leais a Getúlio. "A Razão" e "Correio da Tarde". Segue-se um conflito de rua em que morreram quatro acadêmicos de direito (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo), com os quais São Paulo já tinha seus mártires e também a sigla MMDC. Uma reunião no restaurante Policipo e outra no Clube Comercial estruturaram o levante.
9 de julho, 23h30: o comando da 2ª Região Militar se rebela. Apodera-se das duas emissoras de rádio paulistanas. A Companhia Telefônica e os correios caem em mãos dos revolucionários. A Faculdade de Direito começa a alistar civis voluntários. A Escola Politécnica distribui professores e alunos por indústrias metalúrgicas para a fundição de armas e produção de munição.
A mobilização inicial foi simplesmente épica. Guilherme de Almeida e Menotti de Picchia alimentavam a alta temperatura com reportagens e poemas. Pedro de Toledo é proclamado governador. O general Bertoldo Klinger, comandante militar do Mato Grosso, desembarca gloriosamente em São Paulo. Mas de mãos vazias, sem as tropas e as armas que prometera trazer.
Não foi esse o único contratempo. Flores da Cunha impediu que os gaúchos aderissem ao movimento paulista. minas também ficou de fora. Aquilo que seria quase uma "revolução branca", um passeio até o Catete para a deposição de Vargas, tornava-se uma guerra de desgaste. As tropas enviadas para Itararé (entroncamento ferroviário na divisa com o Paraná) retiraram-se antes da chegada dos 18 mil homens do Rio Grande. Itararé, "a batalha que não houve".
O desequilíbrio bélico era gritante. No Vale do Paraíba, os revolucionários dispunham de uma metralhadora para cada 50 homens, enquanto as tropas enviadas do Rio tinham uma para cada três soldados. São Paulo alistou 200 mil voluntários - número imenso para a população masculina, no Estado, de 3 milhões de jovens, velhos e crianças. Mas ao todo menos de 50 mil tinham condições operacionais.
A vitória era inviável. De nada ajudaram os mutirões das mulheres para a confecção de uniformes. A mobilização também esbarrava na apatia dos operários imigrantes, pouco arraigados às reivindicações regionalistas.
A inferioridade paulista não chegou a ser compensada pelas armas encomendadas na Argentina que não chegaram a tempo, nem pela importação da Itália, já que Roma não reconheceu no Brasil uma guerra civil, o que lhe permitiria exportar material bélico.
A carnificina seria inevitável se o comandante da Força Pública, coronel Herculano Silva, não negociasse sua rendição em troca do compromisso de as tropas federais não penetrarem no município de São Paulo. Para os demais comandantes militares, como Klinger, Isidoro e Euclides Figueiredo, foi uma imperdoável "traição". Os ânimos exaltados estavam despreparados para cenários que não tivessem como desfecho uma vitória acachapante.
O coronel Herculano depôs a 2 de outubro o governo chefiado por Pedro de Toledo. Quatro dias depois, Getúlio nomeava interventor no Estado o general Valdomiro.


PERSONAGENS

Isidoro Lopes

Gaúcho, Isidoro Dias Lopes (1865-1949) destacou-se na Revolução de 1924, contra o governo de Artur Bernardes. Em 1931, juntamente com o coronel Figueiredo , deu início a um movimento militar contra Vargas, que contou também com os paulistas Francisco Morato, Júlio de Mesquita Filho, Paulo de Morais Barros e Aureliano Leite. Foi o chefe geral da Revolução de 1932, até entregar o comando a Bertoldo Klinger.

Osvaldo Aranha

Ministro da Fazenda de Vargas, o gaúcho Osvaldo Aranha (1894-1960) estava em São Paulo em maio de 1932, tentando apaziguar as forças revolucionárias. Durante aquele mês, morreram quatro estudantes de Direito em choques com a polícia na cidade. Até as vésperas do movimento, tentou conciliar os paulistas com o governo, sem êxito.

Bertoldo Klinger

Revolucionário de 1930, o gaúcho Bertoldo Klinger (1894-1969) entrou em conflito com os tenentistas, o que lhe causou uma escalação para o Mato Grosso, no comando da Circunscrição Militar, apesar de ser general de brigada. Em abril de 1932, foi convidado a fazer parte da Revolução paulista. Chefiou as forças federais e estaduais estacionadas em São Paulo.

Flores da Cunha

Interventor federal no Rio Grande do Sul entre 1930 e 1935, o advogado Flores da Cunha (1880-1959) manteve-se dividido entre as forças constitucionalistas (gaúchas e paulistas) e o governo. Em julho, Flores da Cunha declarou sua adesão a Vargas. Sem as forças gaúchas, a Revolução de 32 tornou-se apenas uma revolução paulista.

Euclides Figueiredo

O coronel Euclides de Oliveira Figueiredo (1883-1963), carioca, foi contrário à Revolução de 1930, mas permaneceu no Exército. Em 1932, decidiu apoiar os paulistas no movimento revolucionário contra Vargas e passou a viver na clandestinidade. Ao eclodir o movimento de 32, chefiou a 2ª Região Militar (SP). Seu filho, general João Baptista Figueiredo, foi presidente da República (1979-1985).

Pedro de Toledo

O advogado Pedro de Toledo (1860-1935) foi nomeado interventor em São Paulo em março de 1932, por ser paulista e civil como exigiam os líderes do Partido Democrático e Partido Republicano Paulista. Embora desaconselhasse a luta armada contra o governo federal, foi aclamado chefe civil do movimento de 1932 e governador do Estado.


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