ERROS DE REVISÃO

Folha da Noite, segunda-feira, 08 de abril de 1946.

Neste texto foi mantida a grafia original

BELMONTE

Já escrevi uma vez sobre os "gatos", mas não me parece demais voltar ao mesmo assunto. E, antes de tudo, convem dizer a quem não o souber que "gato", na giria jornalistica, é a troca de letras numa palavra, ou de palavras numa frase, de modo a dar a um artigo ou a uma noticia um sentido diverso do que se pretendia dar. Assim "pastel" é a mistura da composição de duas noticias ou artigos, dando em resultado uma coisa profundamente atrapalhada e profundamente humoristica.

Às vezes, o cochilo da revisão produz "gatos" ou "pastéis" horriveis, absolutamente improprios para menores, senhoritas e pessoas adjacentes. Outras vezes, porem, eles são inocentes, embora ligeiramente maliciosos, como este anuncio publicado pelo "Diario Popular" num dos seus numeros de janeiro de 1926:

"MOÇA - Vende-se uma, a balanço, baratissima, com freguesia formada e aluga-se o predio onde funciona" etc.

O "Estado de São Paulo", no seu numero de 1 de maio de 1926, publicou, na sua seção esportiva, a seguinte noticia - mistura de futebol com trecho de sua seção religiosa:

"LIGA DE AMADORES DE FUTEBOL - Hoje, dia 1.o de maio, a secretaria da Liga de Amadores de Futebol funcionará somente até às 12 horas. Venham as castas donzelas saudá-la como o simbolo de pureza e o exemplo sublime de todas as virgens cristãs! Venham as mulheres em cujas frontes brilha o diadema formoso da maternidade" etc. etc.

Ainda "O Estado" publicou, em 29 de junho de 1928, este belissimo exemplar de "pastel" mistura de uma noticia policial e de uma reportagem sobre a visita do rei da Saxonia ao Brasil. Depois de descrever uma cena criminosa em que uma japonesa alvejara o marido a tiros e que este, caido no solo, tentava por sua vez atirar sobre a mulher, terminou assim:

"Melhor seria matá-la e ele, agora, com o revolver em punho, deu varias vezes ao gatilho. As balas partiram e uma delas matou a japonesa que, depois desse agape ainda realizou um breve passeio pela cidade, pretendendo visitar hoje Campinas, para onde irá pela manhã".

O "Diario Nacional", em seu numero de 15 de março de 1928 por ocasião da catastrofe do Monte Serrate, publicou o seguinte telegrama da caravana de adeptos do Partido Democratico em excursão politica pelo sul:

"URUGUAIANA. 13 (Diario Nacional) - Logo que chegou a Uruguaiana a contristadora noticia da catastrofe que enlutou a cidade de Santos e todo o Brasil, os caravanistas enviaram longo tartaruga em vez de uma chaminé de ferro".

Quando acontecem essas coisas, e outras piores, num jornal, o melhor que se tem a fazer é deixar o "gato" cair no esquecimento para não acontecer o que, segundo se afirma, aconteceu ao austero "Jornal do Comercio", ainda no tempo da monarquia. Certo dia s. m. o Imperador levando uma queda do cavalo, teve que se conservar varias semanas em tratamento, num dos aposentos do palacio. Quando s. m. melhorou, o "Jornal do Comercio" se apressou em noticiar o auspicioso fato e participar aos seus leitores que dom Pedro saira de seus aposentos amparado a duas muletas. Mas a noticia saiu assim:

"Ontem felizmente, s. m. pode sair de seus aposentos particulares amparado a duas maletas".

Quando o jornal saiu foi um escandalo. Aquelas "duas maletas" causaram colicas nos jornalistas. Resolveu-se, então, publicar uma retificação. E esta saiu nos seguintes termos:

"Ontem, por lamentavel descuido de nossa revisão disemos que s. majestade havia deixado seus aposentos particulares amparado a "duas maletas". O leitor inteligente, porem, viu logo que se tratava de um engano. Com efeito. O que escrevemos foi que s. majestade saira de seus aposentos amparado a DUAS MULATAS".

É inutil dizer que o jornal resolveu não corrigir mais nada. !

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